Para Sempre Teu, Caio F.

» 07/09/2009 @ 00:57     » Publicado por: @mr_biglia     » Assunto(s): Blog do Editor    

"O bicho homem não faz outra coisa a não ser pensar no amor".

- Caio Fernando Abreu

Para Sempre Teu, Caio F.Quando aceitei receber o livro "Para Sempre Teu, Caio F.", da Editora Record, escrito por Paula Dip, através da Bites, não sabia exatamente o que estaria por vir. Eu adoro ler, especialmente biografias. E quando pego a biografia de alguém que admiro, a leitura se transforma em uma viagem, uma aventura rumo ao desconhecido.

Eu não conhecia a história de Caio Fernado Abreu. Já tinha ouvido falar dele, já ouvi elogios sobre seus escritos, mas sequer fui atrás para saber quem era o tal. Quando recebi aquele imenso livro de 469 páginas de pura história, confesso que não esperava que a viagem fosse, de fato, um prazer.

Nasci em 1984, quando Caio já era um homem de 36 anos. Ele nasceu no mesmo ano em que meu pai, 1948. Então enquanto eu nascia, Caio desfrutava sua vida, criava situações, escrevia, rebelava-se, fugia rumo ao mundo afora, escrevia, sonhava, desenhava mapas astrais, escrevia, viajava, chorava, ouvia Elis Regina, escrevia, publicava e, por fim, escrevia. Sua vida era a escrita. E não uma escrita jornalística – embora tenha trabalhado sua vida toda dentro de redações de jornais, revistas e editoras – ele escrevia livros, contos, histórias, ele narrava a vida.

Com um ponto de vista único, neurótico e eterno fujão de relacionamentos amorosos, Caio Fernando era aquele típico jovem que viveu uma vida quando o mundo era mais fácil, ao mesmo tempo que cheio da mais extrema dificuldade. Ele presenciou a ditadura, teve amigos como Clarice Lispector (sua musa inspiradora), Elis Regina, Lya Luft, Ney Matogrosso, Bruna Lombardi, Joyce Pascowitch, além de figuras que hoje já não fazem mais parte da nossa realidade.

Embora tivesse relacionamentos gays e heteros, Caio detestava rótulos. Como ele mesmo disse, conforme trecho de sua biografia:

"O homossexualismo [sic] está sendo mais aceito, ou mais entendido, mas só de certa forma. Porque continua sendo um estigma, uma mancha. Antes, a pessoa ser homossexual era lama. Aì a coisa passou a ser mais discutida, relatórios daqui e dali e de repente parece que virou moda. Mas profundamente a questão não foi resolvida. Nunca me liguei a movimentos de liberação gay porque acho que não existe homossexualismo [sic], existe sexualismo. As pessoas são sexuadas ou assexuadas. Tem gente que é assexuada e não gosta de trepar. Mas se você é sexuado, você trepa com homem, trepa com mulher, transa com pessoas, mas quando põe o rótulo homossexual ou bissexual, você reforça preconceitos".

Caio Fernando AbreuEu não consigo imaginar como era para Caio ser gay naquela época. E olha que hoje em dia continua não sendo fácil. E, certamente, ele sofreu por ter aceitado sua condição de sexuado. Felizmente, isso nunca foi uma verdadeira neura na vida do escritor. Embora tivesse uma carreira brilhante, livros e prêmios literários, fama e reconhecimento pelo seu excelente trabalho, ele sempre foi um eterno depressivo. A vida parecia lhe sufocar de uma forma agressiva.

Quando a AIDS chegou de mansinho, em meados de 1980, Caio – como numa profecia – sabia que seu destino era morrer através da síndrome da imunodeficiência adquirida. E, por mais que ele se preocupasse com isso, existem trechos de sua vivência em que ele transmite uma sensação estranha, como se não fosse possível evitar: ele morreria em decorrência do HIV e não havia nada – nada – a ser feito.

Caio queria ser o que foi: mago, xamã, inspirado encantador de serpentes, operador de metamorfoses, sábio transmutador a tanger com o seu condão aquele ponto exato em nós, nos despertando e nos perturbando, instigando a ir mais fundo, além do ponto. Com uma inteligência quase que ferina, Caio Fernando foi um verdadeiro herói. Saído do interior do Rio Grande do Sul, passando por Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e países como Inglaterra e Suíça, nosso escritor em questão sofreu, viveu, amadureceu, chorou, extrapolou, amenizou e concretizou. Teve sonhos, teve amigos, teve família e teve a escrita, sua eterna companheira.

Em deliciosos flashbacks da década de 1980, é possível acompanhar a vida de Caio, a evolução da música, da liberdade, dos escritores, conhecer mais a fundo um Brasil que vivenciou uma das épocas mais preciosas de todos os tempos. Não havia internet, não haviam celulares, não haviam notebooks. Haviam máquinas de escrever, discos de vinil, correspondências. Havia felicidade, havia um ar mais puro, haviam amigos que cercaram Caio por onde ele transitava.

Não vivi nada daquele tempo, não tive a chance de nascer a ponto de experimentar a vida quando tudo ainda era simples. Mas ao percorrer o passado através da vida de Caio, sinto falta de algo que não tive, que não presenciei. Em muitos momentos da aventura, tive a sensação de que nasci na época errada. Caio teve o tempo – e as pessoas – para fazer de sua vida uma trajetória perfeita. Infelizmente ele se deixou apagar muitas vezes por não saber como seguir. Teve vícios, teve sérias depressões, teve recaídas e até quis descer desse mundo, como se estivesse numa viagem desagradável.

Paula Deep (como Caio a chamava) soube dosar exatamente o teor do livro. A riqueza de detalhes, o tamanho de cada conflito, depoimentos valiosos, tudo encaixado de forma real, fiel e de saudadosa verdade. Paula teve um amigo torto, um amigo reto, um amigo de coração. E, claro, teve a oportunidade de mostrar ao mundo quem foi Caio Fernando Abreu. Ela conseguiu.

Caio F. partiu em 1996, deixando legados, deixando saudades àqueles que tiveram um pouco de sua presença. Ele deixou escritos, deixou lembranças, deixou a vida em textos que serão relembrados para sempre. Caio deixou história.

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» Um comentário:

  1. Aline — 07/09/2009 @ 02:35

    Sim, o livro é uma retrospectiva fantástica ao passado!
    Perfeito!
    :D



 
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