Virei gay! E agora?

Descobri minha homossexualidade lá pelos 12 anos, quando estava entrando na adolescência, quando os nossos pensamentos fogem de assuntos da escola e das brincadeiras da rua e passamos a observar as meninas bonitas, se preocupar com a roupa que vamos usar e, até mesmo, a forma de falar.
No meu caso não seria diferente. Bom, na verdade foi diferente. Quando eu descobri que fugia dos padrões da sociedade, eu estava em plena época de transição, estava saindo da cidade onde nasci, cresci e fiz amigos e estava indo para um lugar novo, diferente, onde eu não conhecia ninguém. Um novo estado. Minha vida estava recomeçando. E foi exatamente ali quando eu percebi que eu era diferente.
Eu joguei bola na escola, eu subi em árvores, eu andei de bicicleta, eu troquei figurinhas, eu brinquei de Power Rangers e eu tinha toda a coleção de bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco. Meu pai era meu herói. Ele era desenhista, pintor, esculpia móveis e quadros. Era formado em Letras e Pedagogia, trabalhava como Secretário de Estado e era presidente de um Clube Recreativo. Minha mãe sempre exerceu o magistério. Fui criado com um irmão e uma irmã.
Aí hoje, navegando pela imensidão virtual, através do Twitter, mais especificamente por indicação da @ladyrasta, li um artigo sobre a homossexualidade vista por uma terceira. A criatura se diz:
"Diretora do Instituto de Desenvolvimento da Nobreza Humana. Casada e mãe. Engenheira e Mestre em Inteligência Organizacional-UFSC. Professora do Núcleo de Pós-Graduação da Faculdade de FANESE. Livros publicados: Trabalho e o Reencontro de Interesses, 2006; Sabedoria é a Luz que Guia, 2002 e Você Ainda Vai Nascer, 1995. Autoria de Cursos como: Uma mente organizada; Desenvolvimento das faculdades cognitivas; Ética e Responsabilidade Social; A Engenharia do Comportamento".
Inteligente ela, né? Pois então. Uma formação excelente, uma carreira invejável. Infelizmente, um pensamento pequeno, retrô e voltado para suposições que não mais fazem parte da realidade humana.
No artigo "Homossexualidade: Como A Tendência Homossexual Se Desenvolve?" (o artigo foi retirado do ar), publicado pela pessoa acima mencionada, ela distorce tão bem os fatos que ficamos até tensos quando lemos.
Eu, como professor de educação infantil, tenho muito contato com crianças, participo de cursos, capacitação, seminários, palestras e faço muita pesquisa em cima dos pequenos. Meu mundo é infantil e sempre será. Então eu sei como lidar com os infanto-juvenis, eu sei como conversar sem fazer aquela voz de criança que muitos adultos fazem quando estão na presença delas. Eu sei explicar um assunto polêmico, assim como também sei exercer minha postura de professor sem impor autoridade. Não sou a verdade absoluta dentro de uma sala de aula e sempre, sempre, procuro ouvir meus alunos e debater tudo aquilo que eles têm a dizer.
Pois bem. Ela, como mãe, geradora e professora, acredita que as pessoas "viram" gays. Claro, todos nascemos heterossexuais, ao longo da nossa formação, da nossa criação e de cutucar o pênis do coleguinha durante uma brincadeira inocente, automaticamente estamos nos direcionando ao caminho da homossexualidade. Eu, quando criança, enquanto brincava na escola, pensava em me tornar um homossexual (segundo as afirmações dela).
Para a tal professora, a criança cuja mãe se cuida, gosta de exercer a vaidade, gosta de estar bonita na frente do filho, infalivelmente vai tornar seu filho gay. Sim, pois o filho homem que vê a mãe bonita, enfeitada e bem cuidada vai, sem sombra de dúvidas, querer ser igual à mãe. Quando tiver a chance vai se encher de adornos, maquiagem e, ainda, vai procurar homens para beijar pela rua.
Citando um trecho muito especial que a graduada escreveu (não corrigi eventuais erros gramaticais):
"As crianças, quando pequenas, gostam de mexer com seu órgão sexual, especialmente os meninos. Caso se deixe dois meninos juntos, eles podem sem perceber começar a brincarem juntos. Acontece que o sentimento e a emoção que gozam, suas mentes gravam. A mente cria a memória sexual e registra as primeiras sensações do prazer sexual, que foi feito junto com outro menino, isso é, com uma pessoa do mesmo sexo. Sendo assim, e com repetição de experiências semelhantes, estes dois meninos terão grandes chances de se tornarem homossexuais, por força desta memória. Mesmo depois de muito tempo, quando pensam em sexo a memória avisa das primeiras emoções gravadas que aconteceram com o mesmo sexo. Assim, sentem a necessidade de repetir a mesma experiência. Esta mesma situação pode acontecer para duas meninas. Observem então, como uma simples brincadeira de crianças pode criar a base de uma conduta homossexual na mente de um adulto".
Ou seja: se quando criança você estiver com seu pai em um zoológico, vendo girafas, elefantes e macacos, logo, quando adulto e com seus próprios filhos para levar ao zoológico, você não vai querer fazer isso. Você vai convidar o seu pai para ir ao zoológico com você, pois sua memória gravou aquele lindo e maravilhoso passeio ao zoo ao lado do seu velho. Jamais será possível ir visitar os animas na presença de outras pessoas, pois o êxtase da sua aventura aconteceu ao lado do papai.
Outra citação muito inusitada:
"(…) se as pessoas ao redor começarem a falar que as duas amiguinhas são lésbicas, a interferência indevida pode criar uma concepção errada na mente delas e realmente elas comecem a desenvolver tal relacionamento (…)"
Então pais e responsáveis, cuidado! Se você falar que seu filho ou que sua filha é feio, é burro ou é mal-educado, automaticamente, sem reversão, eles se tornarão tudo isso. Então, antes de falar "filha, você foi muito mal educada hoje", pense bem, caso contrário, se sua filha foi muito bem educada, ela logo reverterá tal situação e você nunca mais conseguirá desfazer o erro. Então, já sabem, digam que seus filhos são gênios, inteligentes e estudiosos, pois assim, apenas dizendo, sem incentivo e sem a necessidade de preparo e acompanhamento, eles automaticamente assimilarão a ideia e serão tudo isso!
Uma situação curiosa na minha infância, que até hoje me recordo, foi quando, ao lado de algumas primas, primos e tios, fui assistir ao desfile de uma fanfarra. Além da banda, haviam umas bailarinas mirins, coisa de 10 ou 12. Todas da mesma idade que eu tinha na época, uns 4 ou 5 anos. Meu primo, ao avistar uma bailarina bem bonita, me falou "olha, a Bastianinha, sua nova namorada". Aquilo ficou na minha família durante muitos anos, toda vez que eu chegava na casa de tios e primos, eles logo me perguntavam "e a Bastianinha? Namorando muito?". Eu nem sequer sabia o que namorar significava, quanto mais namorar uma desconhecida.
O resultado dessa sitação, de acordo com a inteligentíssima professora, seria que eu saísse por aí querendo namorar a tal da Bastianinha. Claro, eles falaram que ela era minha namorada, então ela já era minha namorada! Oras. Pois como é que hoje, aos 25 anos de idade, eu sou gay? Mas não me falaram para namorar a Bastianinha? Não foram anos de questionamento em cima da menina?
Com 11 anos, na catequese (sim, fiz primeira comunhão e crisma, pasmem!), a professora uma vez falou "Deus castigou a Eva porque ela comeu a maçã, o fruto proibido". Aquilo jamais entrou na minha cabeça de criança. Como e Eva foi castigada por comer a maçã? Por que hoje em dia não somos castigados por comer maçãs? A partir daquele dia eu não comi mais maçãs (tá, hoje como, mas hoje em dia sou esclarecido). Por que eu não comia maçãs? Se Deus castigou a Eva, por que arriscar?
Portanto, se você brincar com o seu colega, se você olhar ou até mesmo mexer com o pipi dele, logo você será gay. É o seu destino. E se sua família falar que você é feio, fuja para as colinas, pois nem plástica resolverá o seu caso.
Então, se a engenheira mestre e escritora de muitos livros fosse analisar minha vida, ela se perguntaria: "como ele virou gay?" Ela então, atribuiria a culpa ao meu pai, que era pedagogo, professor e artista, uma vez que pintar, esculpir e desenhar são atividades sensíveis demais. Logo, minha irmã que cuidou de mim, em dado momento desconhecido, disse que eu seria gay depois que tocou meu pipi e limpou meu xixi. Já meu irmão mostrou o pênis pra mim, enquanto minha mãe se enfeitava na minha frente, despertando desejos de que eu pudesse ser como ela.
Resolvido: virei gay por conta disso. E agora? Como reverto? Eu não posso encontrar um companheiro, desenvolver uma relação, um carinho, amar uma pessoa do mesmo sexo? Ter a vontade de construir minha vida ao lado de um parceiro seria, então, fruto de tudo isso que aconteceu na minha vida? Eu sou diferente, eu quero encontrar o amor em um outro homem porque meu pai era sensível, porque minha mãe era bonita na minha frente, porque minha irmã tocou meu pênis ao limpar meu xixi e porque meu irmão, com 8 anos me mostrou o pipi enquanto trocava de roupa junto comigo?
Então, se hoje eu sou professor, se hoje eu moro sozinho, se hoje eu cuido das minhas coisas, limpo minha casa, lavo minha roupa, faço minha comida, se um dia Deus me der a graça de um filho, ele vai ser gay porque o pai é um dono-de-casa? Dar o exemplo da independência, mostrar a capacidade de cuidar da própria vida vai tornar meu filho homossexual?
Vou fugir!
» Veja também:












































Olá. Muito interessante a forma como você abordou este assunto da homossexualidade. Costuma-se dizer: Todos diferentes, todos iguais. No entanto, parece que para muitas pessoas, em pleno século XXI, uns são mais iguais que os outros; é pena que ainda hajam pessoas assim, tão retrógadas e que nada parecem aprender com as civilizações mais avançadas do mundo. Eu respeito as tendências sexuais de cada um pois cada pessoa é livre de fazer da sua vida aquilo que quizer desde que não interfira com o bem-estar dos outros. Parabéns pelo seu texto.
Parabéns pelo texto! Deu vontade de ler mais coisas suas.
Parabéns Pablo! Ótimo artigo. Abordou de forma clara e muito eloqüente as afirmações incoerentes desta Engenheira, Mestre e Escritora… Interessante como algumas pessoas ainda têm coragem de vir a publico e fazer este tipo de afirmação infundada. Lógico que esse ser humano deve citar que é Engenheira, Mestre e Escritora, pois só assim, para os menos esclarecidos, deve surtir algum peso estes títulos adquiridos (de forma duvidosa, diga-se de passagem), uma vez que todos os estudos modernos e pesquisas realizadas apontam para situações completamente diferentes das mencionadas por essa fulana. Parabéns novamente!
Essa mulher é louca, ela não tem qualquer base científica pra escrever tanta asneira.
Confesso que quando eu era menor as pessoas também tinham mania de me arrumar as tais "namoradinhas". #epicfail
Nos tempos de colégio, eu tinha um amigo que dizíamos ser quase um padre, quando crescesse com certeza seguiria tal 'CARREIRA' pura e casta. Se "O Segredo" fosse verdade, de tanto falarmos, ele deveria ser um homem de Deus, e não gay.
Parabéns pelo texto Pablo, muito bom!
A ignorância – no sentido real da palavra: falta de conhecimento – do ser humano me impressiona.
Acho q o buraco dela é bem mais em baixo. Ela é totalmente influenciada por conceitos religiosos… antes de afirmar que um crescimento saudável pode "gerar" uma memória homossexual, ela deveria saber que um berço mal "administrado" gera ódio e intolerância!
Oi, Pablo.
Tudo bem?
Achei o seu texto excelente, a forma como você rebateu cada afirmação dessa senhora, que se diz doutora em tantas coisas, mas foi dar pitaco num assunto ao qual ela não tinha capacidade alguma de escrever a respeito.
Eu li na integra o texto e fiquei chocada.
Já o seu texto foi um tapa com luva de pelica, como diz um antigo ditado.
Parabéns.
Beijo.
Pablo, me senti defendido e um grande alívio ao ler o seu texto. Nenhum título ou estudo tira das pessoas as marcas do preconceito ou a falta de entendimento sobre um assunto ou um universo desconhecido. Sim, porque para expor publicamente essas opiniões, a sra. em questão deveria se aprofundar mais no assunto, se atualizar e deixar de seguir os livros de psicologia da biblioteca que herdou de sua avó, com datas de 1965, 1971… Eles mostram exatamente as idéias da sra. Ainda bem que hoje em dia as coisas estão um pouco diferente. Parabéns pelo excelente texto, que funcionou como uma "sacudida" a todo esse preconceito que vemos por aí.
Ai Ai… fiquei pasmo com, o que li naquele texto. Com certeza tem muita coisa naquela cabeça lá muito mal resolvida! Da maneira como ela fala qualquer contato de uma mãe com o filho parece ser "pecaminoso" e gay!
Não entendi porque ela não acredita que um menino vendo sua mãe se enfeitar e ficar bonita vai buscar uma mulher tão bonita como ela para ser sua esposa! (Atenção, estou tentando raciocinar como ela!!!)
Ou seja, como disse o Dodi ali em cima, os conceitos dela são totalmente influenciados por questões religiosas…. onde se busca, sempre a culpa em qualquer situação possível!
Eu e a @gabibianco fizemos denúncias na ABGLTS (tá certo? me perco nessas siglas). Vamos ver o que rola…
É realmente surreal ver gente falando esse monte de besteira…
[...] texto da "senhora" ali em cima foi a @LadyRasta e o UniversoMix, que também escreveu esse texto aqui sobre o caso!. Ajudaram a agitar a bagaça a GabiBianco e o ZeOffline. Depois dizem que o Twitter [...]
O "arrrrrrrtigo" foi tirado do ar! Eu escrevi um texto falando sobre algumas coisas que descobri da "senhora" e postei no NoGhetto!
Abraços!
É intolerável ainda ter pesoas com pensamentos tão medíocres como essa senhora. Como digo sempre não é quantidade de títulos que faz você uma pessoa sábia, mas sim a experiência. E você rapaz escreveu um texto muito bom, adorei o seu epaço, quando puder vou sempre vim dá uma acessada.
Parabéns para todos os envolvidos nesse "caso". O site Artigonal retirou o "artigo" do ar, certamente perceberam o teor do lixo.
Instituto de Desenvolvimento da Nobreza Humana ??? O nome deste instituto me causa espanto. Será que eles se julgam superiores diante dos demais humanos a ponto de se colocarem como desenvolvedores da "nobreza humana"? O que será que eles entendem por "nobreza humana"? Será que a "nobreza humana" segue um padrão oriental ou ocidental? Bem, parece-me que se quisermos nos desenvolver na "nobreza humana" teremos que segui-los para aprender com eles. Pobre humanidade!